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Jornalismo e travestis

A sexualidade anda em alta na mídia. Nem tanto pelos apelos sexuais de programas como Big Brother ou a publicidade que explora o corpo feminino, mas sim pelas recentes discussões sobre homossexualidade bissexualidade. O cantor Nando Reis assumiu há pouco sua bissexualidade do mesmo modo que tempos atrás a cantora Preta Gil. O Supremo Tribunal (STF) deu um passo importante ao reconhecer por unanimidade a união homoafetiva. O Conselho de Direitos Humanos da ONU também aprovou resolução histórica para promover a igualdade dos indivíduos sem distinção da orientação sexual.

Por outro lado, a falta de informação qualificada e argumentos supostamente religiosos impediram a distribuição do kit anti-homofobia que seria distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) para professores. Além disso, parece ter crescido o preconceito, principalmente com as investidas trogloditas como as do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), contra quem não é heterossexual.

Ainda que aparentemente respeitem artistas e famosos consagrados como os já citados ou a transexual Ariadna ou da travesti e modelo internacional Lea T., no mundo real, fora dos holofotes e das câmaras, é que a ignorância parece tomar conta seja na forma de raiva ridícula, seja na forma de piadas de mal gosto. E a mídia, de uma forma geral, celebra os famosos e ignora a vida real, o que só ajuda aumentar os estereótipos.

Apesar de tudo isso é sempre muito bom perceber que existe inteligência nas faculdades de comunicação, de acadêmicos que querem ser bons profissionais e professores que realmente ajudam nessa formação. Um dos exemplos mais interessantes é o livro traVestIDAS – Caminhos marcados por batom e preconceito, que foi apresentado como trabalho de conclusão do curso de comunicação social, da Faculdade Prudente de Moraes (Itu-SP), pelos então formandos em jornalismo José Fernando Martins de Oliveira e Cristiane de Oliveira Silva, no ano passado.

Os autores traçaram o perfil de cinco travestis que tem vidas completamente diferentes, escolhas diferentes, mas que sofrem com o preconceito e às vezes com a violência. A importância da obra está em tentar dar visibilidade à, provavelmente, minoria mais discriminada no Brasil. Esse olhar jornalístico também mostra que o bom jornalismo não se dá necessariamente nos grandes jornais e se revelam na prática ou ainda nas faculdades.

Cinco histórias de vida surpreendentes, narradas de forma objetiva, mas sempre comovente. Cinco histórias que trazem à luz o quão complexo é a vida de quem se traveste e de quanto a ignorância e o preconceito só tornam ainda mais difíceis os passos da vida de pessoas que tomaram uma diferente do que é o dito convencional. Jozzyane é evangélica freqüentadora da Igreja da Comunidade Metropolitana – ICM e passou a se travestir depois da Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) em 2005. Malu é presidente da ONG LGBT Sol Nascente. Simone, funcionária pública, era remanejada de setor em setor de uma prefeitura do interior paulista, mas encontrou sua realização profissional trabalhando em um museu. A cabeleireira Jô é casada e é avó. E Carol é prostituta e conhece bem os martírios da prostituição: violência, tempo de trabalho curto e muitas que se tornam dependentes de drogas.

Saber sobre as vidas dessas travestis pode ajudar a diminuir o preconceito, pois mostram que independente da sexualidade, são pessoas que amam, trabalham, se divertem e sofrem. Poderiam e deveriam se divertir mais e sofrer menos se a sociedade não julgasse as pessoas pelo seu gosto sexual. Se a justiça, as religiões, o congresso e a mídia tratassem todos como cidadãos com direitos iguais, os gays, bissexuais, travestis e transexuais poderiam ser tratados como deveriam: naturalmente!

* André Alves é jornalista em Mato Grosso e especialista em Antropologia

Publicado originalmente no blog Cinema e Mídia

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About André Alves

jornalista e blogueiro

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