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Crônicas

A praça

Em “Muito Além do Jardim Botânico”, Carlos Eduardo Lins e Silva faz um estudo sobre a audiência do Jornal Nacional e sobre seu reflexo em duas comunidades (uma no sudeste e outra no Nordeste). O autor constata que a credibilidade das notícias veículadas no jornal global passavam por crivos como a igreja, os amigos e a família. Uma conclusão é que existem estruturas e relações sociais que ajudam a moldar uma comunidade, uma sociedade, estabelecendo valores, crenças, a cultura de um povo.

Pois bem, existem lugares que são conhecidos por serem aglutinadores por faixa etária ou classe social, como escolas, clubes, shoppings, points da cidade etc. Outros, como a Igreja, tentam ser aglutinador mas com tantas religiões no Brasil, estas passam a ser mais segregadoras do que unificadoras, se pensarmos numa comunidade como um todo.

Mas eis que, em viagem à Vila Bela da Santíssima Trindade me dei conta de um local algutinador que ainda funciona nos municípios pequenos: a praça. Não importa a idade, a classe social ou a religião, cada qual vai por seu motivo, mas é esse todo mundo ir que mantém mais ou menos coesas as tradições locais. A praça é o coração da comunidade.

As crianças querem ir e são levadas pelos pais para irem brincar… Os pré-adolescentes querem encontrar os amigos mas também aquelas paixonites. “E não é que ele veio, mesmo?!. Tá tão bonito…”, “É ela, é ela, é ela… poxa, mas porque uma saia tão curta? será que eu vou lá falar com ela?”. Os namorados e os ficantes se encontram na praça para saírem pra outros cantos – se houver grana.

Os mais experientes já passam a reparar mais coisas: aquele que enriqueceu rapidamente, os que sumiram e voltaram, triunfal ou fracassadamente… aquelas que engravidaram “daquele cara, que coragem!!!!”, “tão novinha!!”, as outras que “engordaram” ou simplesmente “secaram de uma hora pra outra”. Negócios são fechados, jogos combinados, pescarias são marcadas…

Casais apaixonados vão celebrar o romance, exibindo-se um pouco para os amigos, é verdade, mas também olhando com o rabo do olho antigas paixões. “Babe agora, mané”, “você não me quis mas olha quem eu arranjei; bem melhor que você”. “Estou com ele, mas era você quem poderia estar no lugar”.

E quem já é mãe ou já é pai leva os filhos para a praça para que estes dêem um tempo na cabeça enquanto conversam com os amigos no pouco tempo que lhes sobram. Afinal, com a vida corrida ou devagar, trabalhar e cuidar de filhos toma muito tempo. Na praça é possível se atualizar de todas as fofocas da cidade rapidamente. O que é visível é percebido, o que os amigos querem contar, ficamos sabendo automaticamente. E alguns segredos só são possíveis saber graças aos comerciantes que vivem das pessoas que precisam da praça.

E viva a simplicidade!!!

PS. Ah, mas como seria bom se não houvessem aqueles babacas que ligam o som alto dos seus carros com músicas de qualidade indiscutivelmente podre… como se agradassem a alguém…

Crônica publicada originalmente no Blog Cinema e Mídia em janeiro de 2009

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About André Alves

jornalista e blogueiro

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