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Censurar Ted é como voltar a ditadura

Uma das formas mais torpes de abuso de autoridade é a censura. Nos tempos da ditadura era comum jornais brasileiros virem com espaços em brancos ou com receitas de bolo para substituir notícias consideradas subversivas por incautos e incultos militares. Músicas como Bárbara, num disco ao vivo de Chico e Caetano tem aplausos histéricos para substituir as palavras obscenas “nós duas”. Ou o primeiro disco da Blitz, que trouxe duas faixas “intencionalmente inutilizadas” que poderia estragar a agulha dos toca-discos de então.

E, de repente, décadas mais tarde, começamos a notar ecos da censura vindo dos lugares mais insólitos. Não vou fazer uma lista extensa, mas apenas citar dois exemplos: A Serbian Film teve sua exibição cancelada em um festival no Rio de Janeiro e posteriormente foi banido do Brasil por seu conteúdo (e imagens) de forte conotação psicológica e sexual com um gosto muito duvidoso.

Agora, vem um deputado federal Protógenes Queiroz (PC do B-SP) – famoso pela sua atuação no comando da Operação Satiagraha – propor o banimento do filme besteirol “Ted”, do roteirista, comediante e agora diretor Seth MacFarlane, criador de séries como Uma Família da Pesada. Protógenes alega que o filme faz apologia ao uso de drogas. Não vi, não posso afirmar, mas… e se fizer? Qual é o problema? Acho que dá pra dizer com um alto grau de convicção que quase todas as comédias americanas voltadas para jovens fazem alguma menção ao uso de drogas. Vamos banir todos os filmes, então? Alguma coisa está errada na concepção do nobilíssimo parlamentar.

O que deve ter irritado mesmo o deputado é ter levado o filho de 11 anos para assistir ao filme – com classificação indicativa para 16 anos – e ver cenas inapropriadas e fora de contexto. Ora, vejam só: a classificação indicativa é de 16 anos (muito diferente de censura, bem entendido). Ou seja, se eu vou deixar um filho com idade menor que a recomendada assistir algo, eu é que sou responsável por tê-lo deixado ter acesso a tal conteúdo.

O esperado deveria ser deixar a sala de cinema e pedir desculpas ao filho. Ou assistir até o final e explicar o ponto de vista ao menino. Agora, por causa de um erro pessoal temos que banir um filme?

Como disse, não assisti, mas quero assistir – sem meus filhos – ao filme. Não acho que será grande coisa, mas não tenho o direito – nem a petulância – de impor minha opinião sobre aos demais. Fica registrado no blog, sim, mas não obrigo ninguém a concordar comigo.

Enfim, não estou fazendo uma apologia às drogas (nem mesmo sobre a indústria de cinema estadunidense) nem a um filme em específico. Censura, como disse no início, é sempre uma forma mesquinha de abuso de autoridade. Quando alguém tem poder e não tem argumentos, sua política é a censura.

Coitadinho do Ted, que não tem como se defender!

 

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About André Alves

jornalista e blogueiro

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