//
Você está lendo
Artigos

Vamos esculachar os bandidos

Um dos fenômenos mais interessantes deste século, as redes sociais e em especial o Facebook, é uma mistura da democracia com a demagogia. Se por um lado, cada vez mais as pessoas têm ficado menos tempo vendo os canais abertos da TV brasileira, preferindo passar o tempo navegando em sites e redes sociais, por outro lado existe uma falsa sensação de menos manipulação da mídia.

Não é difícil de ver. Entre na sua rede social e veja as atualizações dos seus amigos. Têm fotos bonitas, mensagens inspiradoras, uma provocação de um time aqui, a exaltação de uma banda acolá e um monte de idéias estranhas, preconceituosas, racistas, machistas, classistas etc. Com tempo, vou me dedicar mais a esses pontos, mas hoje vou falar do assunto “bandidos” e direitos humanos porque vi duas imagens recentemente compartilhadas em perfis de amigos. E também porque revi o Tropa de Elite 2, que apesar de ser mais didático que o original ainda sim muita gente não compreendeu o recado.

Em certo momento, o (fascista) tenente-coronel Nascimento, após ter entendido que era não mais que uma marionete política nas mãos dos poderosos diz que: “o policial não puxa o gatilho sozinho”. Ele está se referindo a prática infelizmente não incomum de assassinatos covardes de bandidos e inocentes numa suposta guerra contra o tráfico e a criminalidade.

Além do próprio “sistema”, os esquemas governamentais para manter seus currais eleitorais, há uma mídia que envaidece ações policiais sangrentas e uma sociedade acrítica que apóia medidas injustificadas, ainda que muitas vezes isso atinja seu vizinho. Aqueles que discordam quase sempre não têm voz, ou sua voz é muito rouca.

É por isso que me saltam aos olhos, em plena era digital, de comunicação instantânea, onde a nossa dependência dos grandes meios de comunicação e de poderosos políticos deveria ser menor, ver imagens como essas abaixo (que fiz o favor de marcar com um x numa tentativa frívola, eu sei, de evitar que sejam reproduzidas, pelo menos não por este blog).

Quem reproduz mensagens como essa acha que está sendo inteligente quando na verdade está sendo altamente tolo, para dizer o mínimo, e reacionário. Primeiro porque faz gratuitamente propaganda à famosa marca de refrigerante. Segundo porque quem mata é assassino e assassino é bandido também. Quem mata um bandido também deveria estar morto também? Seguindo essa linha de raciocínio em pouco tempo não haveria mais presídios e pouquíssimos policiais.

Os bandidos mais perigosos precisam estar presos. Os criminosos devem estar reclusos da sociedade, mas em processo de ressocialização. Aqueles que cometeram pequenos delitos deveriam cumprir penas alternativas se não houver reincidências.

E nisso vem a outra imagem que queria comentar.

Alguma coisa está errada e não é só a gramática. Tanto os estudantes quanto os presidiários precisam de boa alimentação. É um direito básico que independe a sua classe social, idade ou local de moradia. O pior disso é que as pessoas curtem e compartilham bobagens como essas sem checar. Fiz uma pesquisa muito rápida no Google e vi que no geral as comidas em presídios são consideradas péssimas e nas escolas públicas, ainda existem muitos casos onde é muito ruim, a qualidade vem melhorando. Em inúmeras escolas a qualidade é muito boa. Eu, inclusive, já presenciei escolas públicas com boa alimentação aqui em Mato Grosso.

Enquanto culpamos os “bandidos” por consideramos como sendo aqueles que são o que temos de pior na sociedade (quando na verdade são mão-de-obra barata facilmente substituível) e não começarmos a pensar nas causas pelas quais os jovens entram na marginalidade só estaremos reproduzindo um modelo fascista que chacina bandidos e também muitos inocentes. Não podemos nos esquecer, por exemplo, da morte estúpida e até agora impune de Toni Bernardo, o estudante de Guiné-Bissau morto covardemente em uma pizzaria de Cuiabá.

Em tempo: já fui assaltado três vezes, uma vez no bairro onde morava e duas vezes no centro de Cuiabá. Nas três vezes os sujeitos portavam facas e canivetes, mas não sofri nenhum ferimento. Três vezes também tive meu rosto na mira de revólveres da polícia, simplesmente por, na época, ser adolescente.

Se eu tenho medo de bandido? Tenho sim, seu doutor. Mas da polícia, muitas vezes eu tenho mais!

Anúncios

About André Alves

jornalista e blogueiro

Discussão

Ainda sem comentários.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: