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Tabus Sexuais no Cinema

Filmes que abordam tabus sexuais normalmente geram polêmica, dividindo os espectadores entre aqueles que adoraram, odiaram e aqueles que preferem nem ver, sobretudo nos últimos anos, que estas produções começam a aparecer com mais frequencia. Kinsey – Vamos Falar de Sexo, de 2004, com Liam Neeson (num dos seus últimos papéis decentes) é um destes que vale a pena ser visto, abordando várias formas de sexualidade. O controvertido e pouco conhecido Shortbus (2008) explora a temática LGBT de uma forma interessante.

Já o cult Shame (2011), de Steve McQueen com o já astro Michael Fassbender entrou numa seara muitas vezes mais complicada para os puritanos: o da compulsão sexual. Fassbender interpeta Brandon, um bem sucedido publicitário nova-iorquino na casa dos 30 anos. Por trás da imagem de “american dream” conquistador esconde-se um viciado em sexo e pornografia.

Sua rotina relativamente tranqüila, girando em torno de conquistas fortuitas em bares, metrôs e ou contratando prostitutas é abalada quando sua problemática irmã Sissy (Carey Mulligan) vem morar com ele em seu apartamento. A identidade que ele conseguia mascarar tão bem no trabalho começa a ruir por ele não ter seu local seguro e ainda piora porque sua relação com a irmã é extremamente instável, sugerindo até um clima incestuoso. A vergonha (shame) do título começa a brotar ao mesmo tempo em que sua obsessão fica cada vez mais lancinante quando tenta lutar, solitariamente, contra ela.

A direção e a fotografia são excelentes e a crueza das cenas de nudez e de sexo (incluindo o nu frontal do protagonista) não tem apelo erótico devido a forma tratada, intercalada pela sensação de vazio dos personagens. O que não é mostrado é insinuado, de forma tão magnífica que a sensação de constrangimento (para aqueles que entenderam a proposta do filme, é claro) chega ao espectador.

Com o relativo sucesso deste filme no Brasil, outros dois interessantes estrearam ano passado por aqui. O polonês Sem Pudor, é quase a imagem refletida de Shame. Tadzik, um garoto de 18 anos vem visitar a sua meia-irmã Anka e desde o início é mostrado o sentimento amoroso e sexual que ele nutre por ela. Anka, o rejeita, mas de formas sutis ou mais intensas estimula o sentimento do irmão. Anka também tem um relacionamento complicado com um político de partido neo-nazista enquanto a jovem Irmina, uma cigana prometida em casamento, sonha mesmo em casar com Tadzik.

Sem a assepsia da Nova Iorque de Shame, aqui é tudo mais grotesco, mais sujo, mas os temas são tratados sem julgamentos e lida, de uma forma mais ampla, além do tabu do incesto entre irmãos, a falta de perspectivas de jovens da periferia daquele país. Desemprego, repressão aos ciganos, descendência judaica ocultada, neo-nazistas surgindo e a falta de poder ou de querer agir por mudanças. As ações, quando há, são somente instintivas.

Outro exemplo vem da Holanda, com Movimento Browniano, e pelo que pesquisei na internet, o mais criticado dos citados por cinéfilos e conservadores. Em parte, acredito, está na forma como a diretora Nanouk Leopold construiu a narrativa, com longos planos e com pouca agilidade. Aqueles acostumados ao modo americano estranham e nem tentam entender os motivos da escolha. O tema também é ainda complexo e vai contra a sociedade machista. A médica, casada e mãe Charlotte, que vive em Bruxelas, aluga um apartamento para ter relações sem compromissos com pacientes “fora de um padrão esperado por sua formação e vivência”.

Na verdade, o que filme explora de forma bem acentuada em seus silêncios e também nas cenas de nudez e sexo impessoais é a solidão e frustração de uma mulher bem sucedida profissionalmente e também na família. Seu filho, como bem lembra a professora numa reunião com os pais, numa cena em que a protagonista se atrasa porque estava com um estranho em seu apartamento, elogia o filho. O marido, ela diz em outro momento, é ótimo e os dois se entendem perfeitamente.

Ao propor o debate dessa frustração, sem falar abertamente sobre quais seriam esses dilemas, o filme traz uma certa inquietação a maridos e aspirantes a esposos, mas também a mulheres que até, talvez, se identifiquem com ela, ainda que numa maneira apenas fantasiosa. No entanto, é interessante fazer um paralelo com o clássico A Bela da Tarde, de Luis Buñuel (1967) e conhecido brasileiro A Dama do Lotação, de Neville de Almeida (1978). Pela temática abordada no final da década de 60 e 70, esta produção nem deveria ser encarada como provocativa.

Mas, enfim! Chamou-me a atenção nestes três filmes é que os finais são abertos. A dúvida fica na cabeça de quem vê, dependendo do seu grau de maturidade ou do interesse em refletir sobre o que está sendo abordado. O interessante é que eles abordam temas que a sociedade insiste em ocultar, tentando, em vão, varrer para debaixo do tapete. Quando na verdade, essa sensação de rejeição por parte do público, pode mostrar que os tabus precisam ser mais discutidos. No cinema e na sociedade.

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About André Alves

jornalista e blogueiro

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