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Que absurdo índio cobrar R$ 1,00 para tirar foto!

Uma empresária e modelo de Mato Grosso, de acordo com o site 24 Horas News, ficou escandalizada, ao curtir final de semana em São Félix do Araguaia, ter que pagar R$ 1,00 para tirar foto com uma criança indígena. Um absurdo, na visão dela. Na minha é um absurdo cobrar tão pouco.

Pela matéria do site, a proposta de pagar veio da própria empresária, uma vez que a menina não quis tirar foto de graça nem em troca de um refrigerante. Mas porque a menininha teria que tirar foto com a mulher? Não tinha obrigação nenhuma! Se a empresária propôs pagar e a criança aceitou, onde está o dilema?

O problema está no fato de a empresária, e boa parte da população, infelizmente, se achar superior aos indígenas. De acreditar que porque está comprando artesanato, pode pedir para fotografar-se ao lado de uma criança tida como exótica e está criança exótica, aos olhos da modelo, tem que aceitar gratuitamente e de bom grado. Um real foi o preço de um escândalo. A criança é livre para querer tirar foto com uma ilustre desconhecida de graça, ou cobrar um valor irrisório, ou ainda estabelecer um valor cem vezes maior.

Notem que não foi só a empresária que ficou perplexa, pois a jornalista inicia sua matéria dizendo que os portugueses chegaram ao Brasil e ofereceram presentes aos índios do ano 1500 para fazer amizade! Amizade? Será que a jornalista estudou História do Brasil ou acredita que a população indígena praticamente se auto-dizimou? Os presentes foram baratos para os portugueses e custou a vida de dezenas de milhões de indígenas. Os “presentes” foram usados ao longo dos séculos como uma estratégia de extermínio ao oferecerem roupas e outros produtos contaminados com doenças que não existiam aqui na época de Cabral.

Voltando a empresária, esta acha que os índios, coitada da visão limitada e etnocêntrica da moça, estão se esquecendo de suas origens ao usarem “tablets”, “roupas de grife”, e “penteados modernos”. Que tristeza! Que tristeza ler tamanha bobagem. É culpa, claro da falta de conhecimento, de ter uma visão idealizada de um índio dormindo numa rede numa oca. E que isso tem que ser imutável.

Que usar um tablet faz um indígena ser menos índio, usar “roupa de grife” o torna menos índio. Usar penteado moderno, então? Muitos vão achar que não são mais índios por esses motivos. É como se aparência e posses fossem critérios que definissem uma pessoa ou uma cultura.

O lastimável é que os não-índios querem ditar o que os indígenas devem pensar, dizer, usar, onde morar, o que comer e que por essa ditadura não podem cobrar nem um trocado para posar de souvenir ao lado de uma socialite. Mais lastimável é que além de se acharem no direito de exigirem como devem se portar, não veem a real  realidade: falta de demarcação de terras indígenas, a exploração ilegal em suas terras, falta de tratamento médico e muitos outros problemas que afetam inúmeras aldeias pelo país.

Lastimável ao não conhecer a rica diversidade de culturas indígenas no Brasil querer reduzi-los a uma imagem idealizada por românticos do século XVI. Mas, mais do que lastimável, podemos traduzir essa perplexidade em outra palavra: preconceito!

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About André Alves

jornalista e blogueiro

Discussão

5 thoughts on “Que absurdo índio cobrar R$ 1,00 para tirar foto!

  1. Chega a ser irônico. A “cara pálida” se achar no direito de usar e se sentir ofendida. A pretensão é tanta que pensa estar acima do direito do outro.

    Posted by manugrrl | 6 de Dezembro de 2013, 2:36
    • É, meu amor, vergonhoso, triste e repugnante esse tipo de comportamento. Mas infelizmente, no Brasil e principalmente em MT, em pleno século 21 muitos não índios se acham e agem como se fossem superior aos indígenas…

      Posted by Deroní Mendes | 6 de Dezembro de 2013, 11:50
      • E poderíamos atribuir isso a quê? Falta de educação escolar, no sentido de mostrar uma “inferioridade”indígena, falta de caráter e oportunismo?

        Posted by manugrrl | 6 de Dezembro de 2013, 13:46
      • Também achei repugnante, querida, toda a situação. Esse é o nosso Brasil “sem preconceito”, quando na verdade estamos muito longe disso.

        Posted by André Alves | 6 de Dezembro de 2013, 15:21
  2. É certo que nos casos de minorias as escolas muitas vezes reforçam estereótipos ao invés de combatê-los. Mas não devemos considera a educação escolar como a única culpada. A invisibilidade e o estereótipo indígena, por exemplo, é um reflexo da sociedade como um todo e isto pode ser visto em todo lugar, nas músicas infantis, na TV, na imprensa. Sempre tratam como algo “idealizado”, como no mito do bom selvagem, de Rousseau, como algo passado ou o contrário, como bárbaros, quando as pessoas não entendem a sua cultura ou quando tentam lutar pelos direitos. E é assim com todas as minorias, não é mesmo?

    Posted by André Alves | 6 de Dezembro de 2013, 15:19

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