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Eu pago meus impostos

Uma frase muito usada em discursos nas redes sociais ou na mesa do bar, “eu pago meus impostos” mostra o quanto a gente precisa amadurecer para embasar discussões sobre diversos assuntos, incluindo um dos mais em voga, nos últimos dois anos e meio: política. Discutir sobre política deveria ser um assunto cotidiano, pois afeta o dia-a-dia de todo mundo, sempre. Mas usar argumentos do tipo “eu pago meus impostos”, não é uma forma muito inteligente de explicar alguma coisa.
Primeiro porque pagar impostos é uma obrigação e não um privilégio. A alguns setores da sociedade, é possível sonegar – o que não deveria acontecer. Mas todo mundo que compra qualquer produto ou serviço paga, indiretamente, impostos que estão embutidos nos preços do que é consumido. Logo, bradar com cara de injustiçado que você paga impostos é como gritar que você tem células ou que você respira. Ok, mas e daí?
Outro problema dessa (falta de) lógica argumentativa é que os impostos que pagamos tem uma destinação pública e não privada. Ou seja, serve para construção de escolas, hospitais, estradas, universidades, pagamento do funcionalismo público – incluindo aí os policiais, juízes, bombeiros e até mesmo aqueles políticos corruptos. Seria normal se esse argumento fosse usado para se cobrar pelo documento de licenciamento do carro após o pagamento do IPVA ou do alvará de funcionamento de um estabelecimento, desde que cumpridas todas as demais obrigações para se ter ou renovar um e outro documento. Ainda que não sirvam apenas para isso, esse retorno é privado, e você pode exigir, particularmente.
Em outro contexto, a gente poderia exigir melhores serviços e retornos a sociedade pelo pagamento dos impostos. Mas não só pelo imposto que você paga, e sim pelo montante de impostos pagos pela sociedade. Discutir em fóruns como e onde aplicar melhor os recursos do IPTU por exemplo, é um ótimo exemplo de cidadania, mas não deveria ser para defender apenas o seu umbigo, mas sim o de verificar, num contexto urbano e rural, quais áreas requerem uma atenção prioritária da prefeitura. A mesma coisa com o governo estadual ou federal, com obras e infraestrutura, segurança, conservação ambiental, moradia etc.
Mas geralmente quem brada que paga os impostos está querendo defender apenas seus interesses. O que é preocupante, pois não é essa a função dos impostos, nem a de sustentar políticos corruptos e funcionários “aspones”.
E há um lado talvez tão perverso, e que anda quase junto, que é o de justificar a sonegação.
Junto com o discurso de pagar impostos vem o discurso de não querer sustentar político vagabundo e o resultado é gritante. De acordo com o impostômetro (http://www.impostometro.com.br/) de hoje (15/08) os brasileiros já pagaram mais de 1 trilhão e 248 bilhões em impostos (federais, estaduais e municipais, bem entendido) este ano. Neste mesmo período, de acordo com o sonegômetro (http://www.quantocustaobrasil.com.br/) mais de 320 bilhões de reais até agora deixaram de ser arrecadados.
E isso, leva uma importante reflexão: sonega-se muito no Brasil, principalmente por aqueles que repetem o coro do “eu pago meus impostos”.
É preciso combater a roubalheira pública, mas sonegar impostos é também, um tipo de roubalheira pública.
Pagar impostos não te faz melhor que ninguém, mas sonegar te nivela por baixo com aqueles que você critica (muitas vezes com razão).
Punir políticos corruptos e seus altos salários e benefícios é importante para a democracia, mas selecionar quais políticos devem ser punidos é apenas estimular uma alternância no controle de quem gasta mal os nossos impostos.
E por fim, o assunto fica ainda mais complicado quando a gente acrescenta três importantes ingredientes que impulsionam a corrupção: bancos, empresas e indústrias. Mas este é um assunto que quase ninguém gosta de falar, infelizmente.

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About André Alves

jornalista e blogueiro

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