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E chega!

Aí um dia desses, você está almoçando, a TV ligada, por acaso, no programa Encontros, da Fátima Bernardes. Não dá para ouvir direito e nem me preocupo, porque não sou muito ligado em programas de variedades.

Mas…

Aparece na tela um cantor negro, chamado Rael, com longas tranças se apresentando no programa. Um colega, para quem já dei carona duas vezes, faz o seguinte comentário para mim: “Não é coisa de racista, não, mas macaco, pelo menos toma banho”.

Fiquei paralisado. E muito puto. Pensei em reagir, responder alguma grosseria… Não consegui. Peguei o celular no bolso e comecei a procurar fotos antigas da minha esposa, quando ela usava os cabelos trançados, para perguntar se ele tinha a mesma opinião a respeito dela.

Antes de eu encontrar, ele emenda. “Queria que a polícia parasse ele na rua e raspasse o cabelo dele para ele virar gente.”

Estarrecido, comentei que minha esposa usou durante vários anos tranças no cabelo e nunca deixou de tomar banho ou lavar o cabelo por conta disso.

Existe uma diferença de fácil entendimento entre opinião e racismo. E o que esse “distinto” senhor fez não é opinião. É racismo. É crime! Dias antes, outro colega havia afirmado que pessoas que usam dreadlocks não lavavam cabelo. Não achei, neste caso, que era preconceito. Era desinformação. Contei o mesmo exemplo do cônjuge, embora pudesse ter citado facilmente outros casos. Ele estava reproduzindo o senso comum muito provavelmente por nunca ter usado o cabelo com esse estilo ou conhecido de perto pessoas assim.

No episódio de hoje foi diferente de uma opinião ou falta de informação. Pois a pessoa deu a entender que quem tem tranças no cabelo não toma banho e, como o cara na TV é negro, emendou dizendo que era inferior a macacos, que tomam banhos. E, apesar de ter esboçado um sinal de redenção ao cantor Rael, afirmando que a polícia deveria raspar a cabeça dele, para ele “virar” gente, o colega não esboçou sequer um desconforto ao perceber que não gostei, nem um pouco, do comentário.

Ele deve acreditar que todo mundo que tem pele clara é racista, ou que entenderia afrontas como essa como uma piada de mau gosto ou um comentário que deveríamos deixar para lá.

Deixar para lá é o que perpetua racismo, machismo homofobia, transfobia, putafobia, gordofobia, intolerância religiosa e tantas outras mediocridades do pensamento humano; engrossam as estatísticas de violência contra as minorias que ainda são tratadas como se fosse “vitimismo” quando tentam sair da invisibilidade.

Eu, que tenho a pele clara, sou homem, de classe média, e me incomodo muito com esses discursos fico imaginando o quanto não sofrem as pessoas alvos desses preconceitos. Imaginando não é a palavra certa porque como sou casado com uma negra, boa parte da minha família é negra, sinto com um pouco mais de intensidade essas afrontas.

Já ouvi inúmeras outras vezes comentários racistas, classistas, sexistas, obviamente. Mas hoje bateu diferente. Porque não era uma piada de mau gosto, o discurso de algum político idiota na televisão ou de internauta raivoso e com baixo intelecto nas redes sociais.

Foi bem ali, do meu lado, uma pessoa que eu vejo com certa frequência, ainda que fiquemos quase sempre no bom dia e boa tarde que fez comentários de forma tão tranquila como se estivesse comentando sobre a previsão do tempo ou sobre as festas de fim de ano.

A certeza da complacência a pessoas estúpidas as impedem de refletir sobre as besteiras que falam, ainda que muitas não consigam, de fato, fazer as ligações necessárias. Recentemente mulheres famosas como Cris Vianna, Sheron Menezzes e Maria Júlia Coutinho sofreram ataques racistas nas redes sociais. O fato de serem famosas deu certa visibilidade ao assunto. Mas, entre uma denúncia de uma pessoa muito conhecida e outra, milhares de pessoas comuns sofrem com isso diariamente.

E, por fim, alguém já disse, e mais de uma vez: para irritar um canalha: denuncie-o!

 

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About André Alves

jornalista e blogueiro

Discussão

One thought on “E chega!

  1. Muito bom, André! Concordo 100% com o que você nos apresenta, infelizmente ainda é muito comum encontrarmos pessoas em nosso convívio que reproduzem certos comportamentos e pensamentos sexistas e preconceituosos no geral.
    Nossa luta por uma sociedade mais justa continua!
    Parabéns pelo texto.
    Kátia

    Posted by EscolaNossa Geração | 10 de Dezembro de 2015, 14:26

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