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A Onda

A decisão das urnas pela saída do Reino Unido da União Europeia é uma decisão democrática, cujo referendo foi endossado pelo próprio primeiro-ministro David Cameron, em campanha pela sua reeleição. Vale ressaltar que apesar disso, ele, que é do partido conservador, era contra a saída do bloco europeu.
De acordo com pesquisas mencionadas em sites de notícias no Brasil, os votos decisivos saíram de eleitores mais velhos, menos escolarizados e com menos renda. Já a tendência dos mais jovens, escolarizados e com mais renda era de querer a permanência na União Europeia. É certo também afirmar que muitos dos problemas que levaram a vitória pela saída são reais, como a baixa oferta de empregos e uma tendência de crescimentos de ataques terroristas na Europa.
O que não é certo afirmar, também de acordo com o que pesquisei em sites como o UOL, BBC Brasil e vi no Globonews, é que a saída da União Europeia irá resolver o problema ou se, pelo contrário, aumentará o problema econômico nos países envolvidos: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. É preciso ainda entender que ações que foram feitas ou que não foram feitas pela União Europeia que motivaram, pelo menos em parte, essa escolha inglesa.
Mas, não podemos deixar de notar o entusiasmo do ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, do mesmo partido de Cameron, mas mais à direita que o atual premier; do candidato a presidente pelo partido republicano, Donald Trump; e de outros políticos da extrema direita de outros países europeus como na Holanda e França. As ideias nacionalistas populistas da direita atraem multidões de eleitores por proporem ações simplistas para problemas complexos (e é claro que isso também acontece com o populismo de esquerda). Por exemplo, propostas dos já citados Johnson e Trump de restringir a imigração por motivos econômicos e para evitar o terrorismo. Não sou muito seguro em negar que em nenhuma hipótese isso possa ser uma alternativa a alguns países em alguns contextos, mas mesmo se for o caso, é preciso muito cuidado para não estimular o xenofobismo.
E no caso específico do Trump, é muito visível o discurso com esse viés, como no exemplo de um muro na divisa entre os Estados Unidos e o México, bancados, ao menos em parte, pelo governo mexicano. Ou sua proposta de proibir muçulmanos de entrarem em solo estadunidense.
No Brasil temos muitos políticos – não vou dizer os nomes, vocês sabem quem são – que adotam um discurso nacionalista e defendendo soluções simples para problemas complexos: pena de morte, castração química e redução da maioridade penal. É um discurso muito simplista, mas que mexe com mentes de quem já sofreu assaltos, abusos sexuais, sofreu atentados, teve algum parente ou amigo morto ou que simplesmente tem um medo, legítimo, de que isso possa acontecer com ele ou ela. Exigir uma polícia mais eficiente, uma justiça mais eficaz e em alguns casos rever o tempo de prisão por alguns crimes e modificar a política de indultos em datas específicas, entre outros assuntos é mais complexo. Entender como funciona o processo judiciário e a criação de leis também. Junta-se a isso o discurso de negação da cultura de estupro, que o comunismo é uma sombra que paira(va) no Brasil com o PT e que existe uma ditadura gayzista e feminista no país e vimos um crescimento de apoiadores a essas causas.
Por enquanto, a maioria desses políticos é vista como uma piada de mau gosto por aqui. Mas assim também o era Donald Trump em 2012, e agora tem chances reais de vir a ser o próximo presidente dos Estados Unidos.
Em 1967, em Palo Alto (Califórnia), um professor de história fez um péssimo experimento com seus alunos para provar que seria possível emergir um partido nazista em tempos atuais. Sua história foi transportada para a atual Alemanha no filme A Onda, em que jovens, no período de uma semana, incorporam e difundem ideias totalitárias e segregacionistas. Meu receio é que figuras como Donald Trump, nos EUA; Boris Johnson, na Inglaterra; Marine Le Pen, na França; Geert Wilders, na Holanda, e alguns políticos brasileiros estejam atuando como o professor, mas sem a intenção de mostrar o quanto isso é maléfico à democracia.
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About André Alves

jornalista e blogueiro

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